Quem me acompanha pelas redes sociais (Twitter, Instagram ou Facebook), testemunhou toda a minha expectativa em torno da passagem de Madonna pelo Brasil, agora em dezembro. Passei meses fazendo campanha, criando hashtag, evitando spoilers, enchendo a paciência das pessoas e contando cada minuto para o grande dia. Pois bem, ele chegou.
Voltei de viagem oficialmente na madrugada de sexta-feira (6). Obviamente, por onde passo, todo mundo me pergunta como foram os shows, como é que Madonna está, se valeu a pena a empreitada... blablabla. Decidi, então, que era melhor escrever um texto sobre as minhas impressões e tentar fazer com que as pessoas entendam por que o #vemtimboramulher se transformou em #vaitimboramulher.
Rio de Janeiro
O primeiro show aconteceu no Rio de Janeiro, para 67 mil pessoas, no Parque dos Atletas. Cheguei às 11h da manhã, passei 14 horas em pé, com fome e sede, fritando num sol de 40ºC, mas ao lado do meu companheiro de grade Filipe Falcão e de gente muito querida que encontrei na fila. Meu ingresso era para a pista premium. Os portões abriram por volta das 17h20, de modo que consegui ver o ensaio quase todo. Chorei compulsivamente o tempo inteiro. Só parei quando ela saiu do palco.
Logo no ensaio, percebi que o humor de Madonna não estava lá essas coisas. Pensei que poderia ser o calor - ela estava ofegante e chegou a ser abanada por alguns bailarinos -, o cansaço de fim de turnê, enfim. Mesmo assim, ela interagiu com o público, nos chamou de "bundas sujas" e repetiu diversas vezes que era "periguete".
Por volta das 23h15, ela entrou no palco ao som de "Girl Gone Wild". Lá da grade, mais choro de minha parte. Madonna não estava bem. Tecnicamente impecável, o show levado ao Rio foi completo, com direito a "Like a Virgin/Love Spent", contrariando a tendência adotada na etapa latina da turnê. Só que Madonna estava triste, cansada, visivelmente exaurida.
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| "Like a Virgin/Love Spent" no show do Rio de Janeiro |
Nem a infalível energia carioca foi capaz de levantar o astral dela. Percebi várias vezes que ela tentava melhorar, entrar no clima, sem muito sucesso. Quem só queria ver a rainha do pop e curtir um bom show, saiu satisfeito. Mas eu e minha trupe de amigos madônnicos sabemos muito bem o que ela costuma nos dar. E aquilo não chegou nem perto do normal.
Os momentos de interação com a plateia foram breves, meio desconexos e ainda mais reveladores do cansaço de Madonna. Ela confundiu Rio com São Paulo, falou espanhol pensando que era português, errou letra, emburreceu... Um amigo observou que, na verdade, talvez ela realmente estivesse querendo raiva ao invés de confete. Pode ser.
O show terminou com "Celebration". Só que ninguém conseguiu celebrar nada, ao final do show. O público saiu perturbado, confuso... Diferentemente da "Sticky & Sweet Tour", a "MDNA" foi pesada, soturna, difícil de se digerir. Chorei por mais meia-hora nos braços do meu amigo Schneider Carpeggiani, depois que saímos do Parque dos Atletas. Tinha alguma coisa muito errada.
São Paulo 1
Voltei para o hotel, depois do show no Rio, e fui tentar dormir. Mas não consegui. Passei super mal, continuei o resto do dia angustiada, sem saber como reunir forças e ir para São Paulo encarar Madonna de novo. Comecei a repensar a loucura de ter comprado ingressos para os outros dois shows.
Terça-feira (4), por volta das 19h, cheguei ao Morumbi - que lotou - e me acomodei no setor das cadeiras. Achei mais saudável, pois ainda estava cansada e temerosa quanto ao reencontro com a MDNA. Não tive notícia sobre o ensaio, nem sobre o humor dela. Fui à paisana, como uma espectadora qualquer.
Mais uma vez, Madonna surgiu com o semblante exausto no palco. Parecia ter acionado o piloto automático sem a menor cerimônia. O show continuou tecnicamente perfeito até o corte imperdoável de "Like a Virgin". O público esmaeceu por completo. Como ela pôde enxugar justamente o clímax da apresentação? Pergunta sem resposta até hoje.
A reação, na saída do show, foi ainda pior que a do Rio. Nada de euforia, apenas uma leva de gente andando meio calada, cabisbaixa, pensativa... Comentário mesmo só sobre o corpo. "Ela tá super gostosa, né? Queria aquelas pernas".
São Paulo 2
Segundo e último dia. Quarta-feira, 5 de dezembro. Cheguei às 12h, com certa tranquilidade, já que meu ingresso era VIP package - ele me dava o direito de entrar antes de todo mundo e ganhar alguns brindes. A temperatura estava muito mais amena que a do Rio, embora o calor persistisse. Dessa vez, consegui pegar o ensaio do início, o que até hoje não sei se foi uma coisa boa ou ruim para mim.
Logo que entrou para ensaiar, Madonna reuniu bailarinos e equipe técnica e, visivelmente irritada, pareceu distribuir "bailes" para cada um. Logo depois, pegou o microfone e avisou: "estou de péssimo humor hoje". Um balde de água fria para os fãs tão calorosos. Não é fácil lidar com a pessoa de carne e osso que leva a nossa diversão como trabalho.
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| Ensaio na quarta (5), em São Paulo |
Ela repassou algumas músicas e coreografias, errou umas coisas, chamou atenção de mais algumas pessoas e assim permaneceu por quase 1h, sem sequer olhar para o público. No final, um rapaz que chorava mais compulsivamente do que eu, no Golden Triangle, acabou comovendo-a. "Você está chorando as lágrimas que eu gostaria de chorar", diz. Nem preciso dizer o que aconteceu comigo, né?
Depois de falar com o fã, Madonna saiu do palco com a guitarra, sem despedir. O ensaio, ao que tudo indicava, tinha acabado. Minutos depois, ela volta com uma caixa de lenços de papel e entrega nas mãos do tal moço. "Pare de chorar", pede ela, que continua a repassar as músicas.
Já no ensaio eu percebi a dificuldade dela em fazer as coreografias. Era tudo feito com má vontade e um tédio sem fim, exigindo-a um esforço sobre-humano. Sinceramente, não consegui enxergar o prazer que testemunhei em 2008, na Sticky. Madonna me fez entender o que ninguém mais faria: ela tem prazo de validade.
O show foi primoroso. Mesmo com o enorme atraso, agora em decorrência da chuva, ela entrou mais animada. A ameaça de se apresentar sob o temporal tirou um pouco de sua apatia. De repente, o "fuck the rain" salvou a noite das 50 mil pessoas que tinham ido ao Morumbi naquela quarta. "Vocês merecem uma recompensa por terem me esperado tanto tempo, por causa da chuva. Que tal um 'Holiday'?", arrisca, num gesto repentino de simpatia, entoando um de seus hinos.
O show continuou sem grandes alterações, inclusive no corte de "Like a Virgin", que permaneceu fora do setlist. Mas cada vez que ela chegava perto de mim, era transparente o desalento de estar ali, o que só me deixava ainda mais deprimida.
#vaitimboramulher
Madonna está cansada. Nem o ótimo corpo, a obsessão pela técnica perfeita e a glória de fazer a turnê mais lucrativa dos últimos tempos impediram a expiração de sua validade. São três décadas de estrada, 54 anos de idade, quatro filhos, separações, amores, desamores, rumores... Tudo dói, como diria Gal na letra de Caetano. Viver é um desastre que sucede a alguns, e desacelerar também. Talvez tenha chegado a hora de a rainha pisar no freio. Parar seria demais, ela não aceitaria. Nem nós. Mas fazer uma turnê do tamanho da "MDNA", acho que não acontecerá de novo.
No fundo do meu coração, eu sabia que eram de despedida todas as lágrimas que derramei nos shows. Posso estar errada, mas se for para vê-la com aqueles olhos verdes de tristeza em cima de um palco, prefiro que ela seja feliz longe dele, e consequentemente de mim. Amar é isso. E minha maior prova de amor é me despir do egoísmo de fã. É o mínimo que posso fazer por quem já fez tanto por mim. Espero mesmo que Madonna encontre o caminho de luz e felicidade para a vida dela, seja ele qual for.
Fazendo um balanço dessa viagem madônnica, posso dizer que o melhor foi ter compartilhado a alegria sublime de ver a MDNA Tour com os amigos queridos, os novos e os velhos, que Madonna me deu. Foi ter passado horas em pé, sem comer ou tomar água, levando sol, chorando ou dançando, e ter a consciência de que faria tudo novamente. E, sim, ter conseguido me despedir, de coração aberto, daquela que por tantos anos me salvou dos meus demônios.